segunda-feira, 2 de setembro de 2013

TRAVESSIA





Atravessa montes alvos, neve, gelo, escorregadia a escalada. A descida é igualmente penosa e arriscada, mas segue em frente. Sob os seus pés o solo é macio, pantanoso. Parece terra firme, mas sem aviso é mole, côncava, convexa, desequilibra, chafurda. É necessário tanto esforço para dar um passo adiante!
A caverna que alcança é um poço escuro, profundo. Entrada solitária e rubra estalactite. Cordas presilhas, botas e ganchos, desce mesmo sem garantia ou lanterna. Tateia caminho abaixo, sentindo bufadas de ar que vem do fundo da caverna, terra em respiração, ar que vibra as delicadas paredes.
Lascas nos pés, joelhos, mãos, tropeço. Fora do túnel, vale verde mas vazio. Nova subida então. Montanha escarpada, fria e soturna. Olhar zombeteiro do céu em cinzas.
Terrificado demais para retornar, amedrontado para ir adiante, não lhe resta opção. Ferido, faminto, sedento de corpo e de alma.
Imóvel agora. Arfante e exausto. Nada lhe resta a não ser a derrota ou o abrigo num castelo desconhecido. Será recebido ou maltratado? Morte provável ou certa? Que há de fazer?
As lágrimas que lhe escorrem pelo rosto seguem com as gotas de chuva até o rio bem abaixo, tornando-o turvo e salgado.
Sem elmo, capa, espada, ao relento. Corpo exposto. Alma aberta. A esperança de alcançar o topo, o impulsiona, o sonho do conforto, da recepção e do amor.
Seu beijo clama carinho e calor. Seu pedido passou pelos dentes, língua, garganta, enfrentou a mente fechada e aguçada de sua amada. E encontrou um coração fechado.
Castelo inexpugnável, defesas erguidas, ponte levadiça, foço, arqueiros. Zunido no ar. Por um breve instante, anestesia, choque. Ferida mortal, seus olhos contemplam a chaga aberta. E vulnerável, o amor vai sangrando um fim lento.


Um comentário:

  1. Para alguns, uma jornada. Para outros, uma jaula... ou a besta enjaulada...

    ResponderExcluir