sábado, 16 de outubro de 2010

QUANDO



Quando eu me for não quero mais do que a certeza de que eu fiz diferença.
Não quero choro falso nem remorso.
Quero sofrimento sincero daqueles que me amaram.
Quero a indiferença honesta daqueles que de mim não gostavam.
Quero ir em paz, sem arrependimentos, culpa, desespero.
Quero ir-me deixando a dor finalmente para trás, a do corpo e da alma.
Quero ir com o coração leve e a alma cheia de boas lembranças.
Quero um mar calmo, navegar em águas tranquilas, ver através do turbilhão; e enxergar com clareza tudo que submergi em turvas águas.
Quero pescar de volta os pedaços de minha alma que fui deixando ao longo da viagem,
para me apresentar inteira no porto de chegada, defeitos e qualidades todos à mostra.
Não quero coroa de flores ou lápide intrincada. "Aqui jáz" não será verdade,
pois não serei mais do mundo.
Eu não mais estarei, terei partido, não estarei naquele lugar, não faz sentido um marco num ponto que não me localize...
Que ponham um mármore que diga: amada, querida, saudosa.
Mas que saibam que me encontro nas lágrimas, sorrisos, suspiros, alegrias, tristezas, angústias e sucessos de cada dia.
Quero ser relevante hoje o suficiente para fazer falta.
Quando eu me for, quero que me deixem ir; mas
que desejem que eu possa ter ficado mais.
Quando eu me for, quero remar rumo ao desconhecido com coragem, deixar  medo, pavor e pânico no mundano.
Quero anjos e nuvens e todas as coisas que imaginei e nem sei se serão.
Não quero a guerra diária que travo contra os outros e contra mim, para não ser massacrada pelas críticas e pela solidão.
Tudo será pacífico e belo quando eu me for.
E eu irei. Ah, irei.

Um comentário:

  1. Todos nós... é o fim comum a todos que por aqui pisam. Uns se vão sem deixar marcas, outros deixam conosco parte de sua essência, mas todos passam. O importante é ter essa serenidade. Que lindo texto! Espero o mesmo e tenho os mesmos temores!

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