quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SOBREVIVENTE




Vivo sobre tudo que se apresenta em meu caminho. Vivo sobre os destroços da queda livre da minha existência.
Tenho pouco a dizer sobre como viver: o que sei eu, perdida no meio desta lama social que se chama vida, tentando não chafurdar no lodo. O que posso dizer, eu que nem acho o caminho que devo percorrer, que tenho medo de andar adiante e ferir-me com os espinhos que sempre lá estão. O que posso acrescentar à alguém, estagnada que fico, paralisada de medo e impotência.
Vivo sobre os cacos do que fui, dos sonhos despedaçados de uma menina alegre e tímida.
Sobrevivo às feridas da adolescente deslocada, da adulta insegura. Sobre o viver, pouco sei, pois que me recolho ao meu canto e pouco ou nada vivo.
Amo plenamente, vivo este amor, mas não sei como ele sobrevive à mim.
Penso intensamente, racionalizo cada dia, mas não sei que juízo fazer de mim.
Sobrevivo tenazmente, a cada minuto, segundo, mas não sei porquê.



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

SEJA





Seja. Faça. Consiga. Ganhe. A corrida é longa, os atletas muitos. Uma disputa leal é aquela na qual se vacila, fraqueja, na qual se almeja algo e o perca.
Derrubar corredores com sorrisos, rubra faca deslizando pelas costas desavisadas, balas de falsidade disparadas com precisão militar. Trapaceie. Machuque. Atropele. Prevaleça.
Bate o sino anunciando a volta derradeira, o gosto da vitória já nas papilas. A corrida é longa, os atletas muitos. A linha de chegada pode ser vista ao fim da curva.
Passou tanto tempo pulando acontecimentos, atropelando amizades, derrubando pessoas, correndo a vida toda, que não percebeu que envelhecera. Pernas já fracas, peito arfante, olhos arregalados e coração gritante. O grito é silencioso quando a faca de um corredor mais jovem lhe atravessa, lancinante e certeira. Cai de joelhos, olhos baços vendo a bandeira erguida. Nunca a alcançará. Correm todos, muitos, todo dia. Mas no afã de esfaquear a concorrência, nenhum atravessa a linha de chegada.

TRAVESSIA





Atravessa montes alvos, neve, gelo, escorregadia a escalada. A descida é igualmente penosa e arriscada, mas segue em frente. Sob os seus pés o solo é macio, pantanoso. Parece terra firme, mas sem aviso é mole, côncava, convexa, desequilibra, chafurda. É necessário tanto esforço para dar um passo adiante!
A caverna que alcança é um poço escuro, profundo. Entrada solitária e rubra estalactite. Cordas presilhas, botas e ganchos, desce mesmo sem garantia ou lanterna. Tateia caminho abaixo, sentindo bufadas de ar que vem do fundo da caverna, terra em respiração, ar que vibra as delicadas paredes.
Lascas nos pés, joelhos, mãos, tropeço. Fora do túnel, vale verde mas vazio. Nova subida então. Montanha escarpada, fria e soturna. Olhar zombeteiro do céu em cinzas.
Terrificado demais para retornar, amedrontado para ir adiante, não lhe resta opção. Ferido, faminto, sedento de corpo e de alma.
Imóvel agora. Arfante e exausto. Nada lhe resta a não ser a derrota ou o abrigo num castelo desconhecido. Será recebido ou maltratado? Morte provável ou certa? Que há de fazer?
As lágrimas que lhe escorrem pelo rosto seguem com as gotas de chuva até o rio bem abaixo, tornando-o turvo e salgado.
Sem elmo, capa, espada, ao relento. Corpo exposto. Alma aberta. A esperança de alcançar o topo, o impulsiona, o sonho do conforto, da recepção e do amor.
Seu beijo clama carinho e calor. Seu pedido passou pelos dentes, língua, garganta, enfrentou a mente fechada e aguçada de sua amada. E encontrou um coração fechado.
Castelo inexpugnável, defesas erguidas, ponte levadiça, foço, arqueiros. Zunido no ar. Por um breve instante, anestesia, choque. Ferida mortal, seus olhos contemplam a chaga aberta. E vulnerável, o amor vai sangrando um fim lento.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

FLUIDO





Gotas pequenas, contínuas, acumuladas na superfície gelatinosa e colorida.
Passos atolados neste solo traiçoeiro. Escorregadio. Viscoso.
Gotas caem mais frequentes, fortes. Passos apressados que ficam presos na areia movediça.
Gotas agora tão rápidas, poderosas, Passos agora desesperados, tentando equilibrar-se no musgo.
Gotas que se transformam em torrente. Fios d'água em um instante, enxurrada violenta no seguinte.
Barro , borralho, buracos no trajeto dos passos trôpegos, angustiantes.
Lágrimas caem como chuva, o tempo fica seco como o sertão e a vida passa diante dos olhos tal qual  paisagem impossível.

MAIS FORTE



É um vício, é uma droga, é mais forte do que eu. Estou guardando meus escritos para quem sabe publicar, participar de concursos literários, para a posteridade, se é que alguém vai se interessar em ler alguma coisa do que escrevi no futuro. Mas o fato é que aqui fiquei sem postar por muito tempo, pra quem o fazia quase que diariamente.
Tento passar o tempo reescrevendo velhos textos, me iludindo de que tenho um romance em execução, trabalhando sobre meus contos, lendo, lendo de tudo, discutindo sobre política, e ainda assim, tudo que penso é em postar algo em meu blog. Pois virou meu mundo, me espaço de expressão, meu único canto de liberdade, de vida, única parte que funciona na complexa e alquebrada engrenagem que sou eu.

É mais forte do que eu a necessidade de comunicar-me com quem nem sei se visita este blog. Bom, o contador diz que visitam isto aqui, mas provavelmente o dispositivo conta todas as vezes que entro aqui, edito, reedito, troco imagens e vídeos, reformo, transformo, compulsivamente melhoro o blog, pois algo eu TENHO QUE MELHORAR, e já que não consigo melhorar a mim mesma, ser uma pessoa melhor, uma profissional mais eficiente, uma docente sem medo dos discentes, uma mulher mais bonita, mais sexy, mais atraente,uma esposa melhor, mais companheira, mais amiga, uma mãe, bom, que pelo menos meu blog preste, que ao menos este resquício de parte do que eu sou e penso, este loteamento na terra de nínguém chamada internet seja um pedaço bom, bonito, agradável, leve, todas as coisas que eu já fui e não sou mais e tenho um sentimento de que jamais voltarei a ser.
Morro um pouco a cada dia, e quem me conhece vê parte por parte de mim se desvanecendo. Por eles, pelos que me amam, e são tão poucos (por minha causa), eu luto para recuperar os pedaços caídos e colar com durex, cola, superbonder, grude, cuspe, o que quer que seja. Mas não consigo me consertar, apenas fazer um mosaico de mim mesma, tão disforme e feio que nem eu mesma me reconheço.
Estou à beira do abismo, juntando coragem - ou pra dar um passo atrás e retomar caneta, papel, teclado e tela ou para dar dois passos à frente e me perder no vazio.

De vez.

Não quero ser assim, não posso ser assim, não devo ser assim.

Mas é mais forte do que eu.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

STAGNADA





Tal e qual poça d'água em um beco sujo após a chuva - é assim que ela está. Stagnada. Ela nunca se move. Nunca. Faz uns vinte anos que está no mesmo empreguinho insatisfatório mas seguro. Quer sair, pode fazer muito mais mas não... os braços, as pernas não a obedecem. A alma quer partir para voos mais altos mas os pés se fincam no chão. O coração anseia e suspira por mais da vida mas a mente a boicota e embota. O medo a deixa paralizada. Stagnada. Medo do quê? Do desconhecido. "Mais vale uma tragédia anunciada na mão do que duas possibilidades voando." diz para si mesma à guiza de desculpa. Fato certo é que o novo a atrai, de algo novo ela necessita, porém o novo a aterroriza. Ao longo do caminho a covardia se tornou sua segunda pele, uma carapaça que a imobiliza e impede de viver. Stagnada.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ESTOU






e há momentos em que não vislumbro a Luz no fim do túnel. Fico acometida de uma cegueira que não me permite ver um porto onde ancorar-me. Onde está o horizonte? Existirá um futuro em meu amanhã? Houve algum plano concretizado de futuro em meu passado? CHEGA! Eu não quero pensar! Eu não quero esquecer! Nada vejo e sigo em frente, tateando e levantando, rastejando mas acreditando... Não interessa se nada enxergo nos dias que virão! Eu vou me vou, vou até lá. Lá, onde? Não sei, apenas caminho, pois estou indo ao encontro. De quê? Desconheço o que seja que só vejo em parte e não face à face, porém  sei que está à minha espera. O futuro que meus olhos cegos não vêem, este eu tenho certeza que existe, pois meu coração o sente e, bem ou mal, vou-lhe ao encontro, de braços abertos, que possuo uma esperança e uma credulidade cegas no que vai ser. Com ou sem bengala, com ou sem apoio, com ou sem, vou de braços abertos, havendo neles menos rendição e mais voracidade de viver e crer em Deus e no outro que também sou Eu, que qualquer outra coisa; derrubam-me, eu que sou cega, machucam-me, atropelam-me com seus passos desesperados atrás de futuro. Mas usam a fórmula errada, que buscam o amanhã com os olhos. Eu, que nada vejo, só posso sentir e crer e, assim, descubro que o Futuro não é prédio pronto e sim, é material que eu, a "dona" e mestre de obras, devo usar para a construção de algo que só terá fim quando eu findar, mas então poderei dizer: Em cada tijolo e na argamassa, em cada parede, móvel e objeto Eu estou.

FESTIM

TATURANAS PASSEIAM POR MEUS OLHOS CANSADOS DE FESTEJAR                    A FESTA É MORTA  E OS SONS MÓRBIDOS                         E MEUS OLHARES MORFÍNICOS   RECAEM SOBRE OS FESTIVOS EMBALSAMADOS                               SÃO AS HORAS               QUIZÁ O GIM        QUIZÁ A MÚSICA INTIMISTA E AGRESSORA DE IGGY POP E CAVE                  QUE IMPORTA
OS OLHOS GIRAM SOBRE OS CALCANHARES
E VOLTANDO-SE PARA DENTRO
PARALIZAM-SE DIANTE DO HORROR
DE NÃO TER-SE O QUE VER
/E OS OLHOS SÃO FAMINTOS DE ENXERGAR SEMPRE\
O QUE ESTOU DIZENDO NÃO TEM NADA A VER    FORGET IT
COM CERTEZA APENAS UMA CRISE DE GRAU ALCÓOL-AGONIZANTE   ISTO PASSA
EM MIM?     
SOU A GEOMETRIA PLANA DO NÃO-EM-MIM
AS TATURANAS ESPALHAM-SE PELO MEU CRÂNIO E COMEM AS IDÉIAS QUE SE ENROLAM EM MIM -  DENTRO FEITO PARASITAS NO HOSPEDEIRO
E CAEM GORDAS PELO MEU COLO E ARRASTAM-SE PELO SOFÁ EM MEU CANTO DA SALA
A FESTA CONTINUA E ME ATRAVESSA COMO UM TIRO QUE PERPASSASSE O TÓRAX E SE ALOJASSE A QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA     O CORPO    ADORMECIDO PELA AGONIA   SEM SABER-SE VIVO OU MORTO SEM MOVER-SE E FLUTUANDO
COBERTO DE NEVE SOBRE O FOGO MÁRTIR

A FESTA É UM TIRO DE FESTIM NA ARMA DE UM SUICIDA

UMA GAFE
UMA PIADA CONTADA EMBAIXO DÁGUA
UMA PÍLULA DE AÇUCAR DE UM HIPOCONDRÍACO INCONFESSO

A MIRAGEM DE UM ROSTO

Na boca
o gosto ácido do pecado
que o mundo tanto condena:
            se falar a verdade,
            acima de toda razão,
            além de qualquer coisa que seja.

Nas narinas
o perfume azul da mágica
            de ser vivo
            de ser água-viva
            no oceano de existir.

Nos ouvidos
a santa surdez
            aos ruídos do mundo civilizado
            a sensibilidade
            para os acordes do silêncio.

Nos olhos
uma luz que é fome imensa
            de satisfazer nossa vontade
            de devorar aos outros e a nós mesmos
            e de sermos devorados até os ossos.

Na face
a imagem do pleno-vazio
            de amor
            que tranpassa a alma
            até o nosso desconhecido.

SPECTACLE




CURTAINS OPEN.
LIGHTS DEEM.
FURY IN THE CAGE.
WILD BEAST.

TIGHT. LOOSE.
THICK. THIN.
DARK. LIGHT.
VIRTUE. SIN.


SELF-STEEM.
SELF-LOATHE.
MONSTER'S EYES
SHADED OF GREEN.

STEEL-LIKE AUDIENCE.
STILL TRAPPED IN THE CIRCLE.
THE JOKE OF HER EXISTENCE.
SHE'S BECAME A WEIRDO.

NO OVATION.
NO BOW.
SCORCHING SENSATION.
SLASHING HER SOUL NOW.

SHARP. BLUNT.
QUICK. SLOW.
A FLICKER OF THE FLAME.
A TWIST OF THE WRISTS.

LAUGHING OF HER, THE CLOWN.
SHE'S BECOME HOT AND COLD.
HER TENT IS THE DARKNESS' FALL
CURTAINS CLOSE. END OF THE SHOW.

TIME WEIGHTS




I FEEL THE WEIGHT OF EVERY SECOND, EVERY HOUR, EVERY DAY OF MY LIFE. I WAS BORN MILLIONS OF YEARS AGO. ANCIENT WOUNDS, UNHEALED SCARS, UNFINISHED ISSUES. I LOOK AT MYSELF AND I SEE EVERY SPOT, WRINKLE, ILLNESS. YODA SEEMS SO MUCH YOUNGER THAN THE PERSON I SEE LOOKING AT ME IN THE MIRROR. I'M OLD BIBLICAL - GOD MADE THE WORLD IN SIX DAYS, SAW IT WAS GOOD AND RESTED IN THE SEVENTH DAY - THE DAY HE WAS RESTING, PAIN WAS CREATED AND ME WITH IT. WE ARE ONE. THE PRICE OF WISDOM IS NOT YOUTH OR BEAUTY - IT'S THE WASTED YEARS. THE WISER YOU ARE TO HAVE A GREAT LIFE, LESS TIME YOU HAVE TO USE THIS KNOWLEDGE AND BE FULLY HAPPY. WHAT A IRONY! LEARNING TO LIVE WHEN DEATH IS JUST AROUND THE CORNER. TOMORROW ANOTHER CHAPTER OF MY LIFE CLOSES UP. THE BEGINNING OF A NEW ROAD TO OTHERS JUST SHOW ME HOW MUCH MY FEET ARE STUCK IN THE SAND, HOW OLD I FEEL, I LOOK, I AM, UPSIDE DOWN, IN AND OUT.


RIP THE HEART OUT



I WISH I COULD FOR ONE DAY TAKE OUT MY HEART OUT OF MY CHEST. LOOK AT IT. MEND THE SCARS. HEAL THE WOUNDS. FIX THE BROKEN PIECES. CLEAN IT UP OF ALL DIRT ACCUMULATED IN YEARS OF UNFORGIVEN UNFAIRNESS BECAUSE THAT'S WHAT LIFE IS (BUT SOMETIMES IT'S JUST TOO MUCH TO TAKE). BUILD A FORTRESS TO KEEP IT SAFE.
I WISH I COULD TAKE MY BRAIN OUT OF MY SKULL. CUT THE CONNECTIONS BETWEEN KNOWLEDGE AND PAIN. ERASE HURTFUL MEMORIES BECAUSE ALL THEY DO IS AN ENDLESS REPLAY OF THE DREAD, TH
E SHAME, THE SADNESS AND THE ANGER. FIND THE CRAZZINESS AND KILL IT. FIND THE BALANCE AND KEEP IT. FIND THE CREATIVITY AND GROW IT. KEEP MY SUPEREGO IN PLACE, MY EGO IN ORDER AND MY ID RESTRAINED BEHIND BARS, BECAUSE IT'S A WILD BEAST THAT RUNS UNLEASHED OUT OF MY WILL AT TIMES AND CAUSES DESTRUCTION FROM THE INSIDE OUT.
I WISH I COULD TAKE MY SOUL OUT OF MY BODY. SEW THE HOLES I BURNED IN IT. CLOSE THE ONES OTHERS MADE IN IT. HAVE THE HATRED EXORCIZED FROM IT. BRING BACK THE STRENGH TO BE GOOD. WASH AWAY THE SINS. LOOK AT MY SOUL AND REMEMBER THE BLESSINGS.
I WISH THE IMPOSSIBLE FOR BEING ALIVE MEANS HAVING A MARRED HEART, AN OVERWHELMED MIND AND A BATTERED SOUL. BEING ALIVE IS BEING IMPERFECT. IT'S BEING HUMAN.  IT'S BEING ME.

MEU PAPEL

SIGO REPRESENTANDO MEU PAPEL. CONTINUO SENDO PALHAÇA DA VIDA. ANTES ISSO DO QUE BESTA ENJAULADA, ANIMAL ADESTRADO, EQUILIBRISTA SEM REDE DE PROTEÇÃO. DEIXE PENSAREM QUE SOU BOBA E OS DIVIRTO QUANDO, DE FATO, ELES É QUE ME DIVERTEM COM SUA
POBREZA INTERIOR. SOU PALHAÇA SEM RISO NA ALMA, SEM GRAÇA DO CORAÇÃO, SEM ENCANTO NA MENTE, SEM BRILHO NOS OLHOS. SOU A FERA VIOLENTA DISFARÇADA DE INOCENTE ALEGRIA.

R.I.P. ME

R.I.P. ME = REST IN PIECES OF A SHATTERED MIND CONECTED TO A BURNED HEART AND A FRAGMENTED SOUL. I'D LIKE TO BE PRECISE AND COHERENT. BUT I CAN'T DO IT EVEN FOR ME, MUCH LESS TO OTHERS. CRAZY...CRAZY... CRAZY! OR NOT. IT MIGHT BE I'M THE ONLY CONSCIENT ONE LIVING IN AN PARALEL WORLD, AN ALTERNATIVE REALITY. I'LL WAKE UP AND EVERYTHING WILL BE "NORMAL" AGAIN. I KNOW I DON'T MAKE ANY SENSE. WHO DOES NOWADAYS?

RETALHOS DE SER




– Cortes assimétricos – arremedo de alta-costura –
–ponto em cruz – Pai Filho e Espírito Santo dela se apiedem e a salvem
– indentações  – relevos  – perspontados num tecido elástico
– fino tal qual seda  – único para cada cliente  –
– Não foram os cortes feitos por um design
– talvez desígnios do escuro – talvez blackout –
– o preto básico sempre na moda –
– atados e costurados –
– os cortes formam vestimenta nova –
– nao mais seda –
– mas couro curtido e endurecido –
– Nao mais roupagem maleável –
– mas em trapos –
A tesoura e as agulhas na caixa de costura repousam serenas esperando a hora de fazerem novos cortes.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FELICIDADE ESCRITA



Não, o riso não pode ser apenas transcrito em fonemas e daí para signos.

Não, o sorriso não pode ser apenas descrito, tem que ser visto, assim como a gargalhada só existe se não for registrada e sim, ouvida em alto e bom tom.

Não, a alegria não pode ser pensada, analisada, significada: deve ser aproveitada.

Qualquer texto sobre a alegria, felicidade, risada, festa é de algum modo incompleto, é parcial, faltoso, aleijado, como se não tivesse expressado tudo o que deveria.

E nenhum texto sobre estes assuntos jamais será total, pois a felicidade não pode ser racionalizada, decifrada, posta em símbolos, letras, grafemas, frases. 

A felicidade é ou não é. A felicidade nunca deveria ser escrita: ela deve ser vivida.

VIADUTO



O cheiro de urina, lixo e dejetos contrastam com a bela arquitetura daquele viaduto centenário. As boas roupas, penteado, sapatos e perfume importado escondem o odor acre do pavor e da angústia para os transeuntes que por ela passam. O clássico viaduto parece tão deslocado na moderna metrópole. Deslocada, ela também está, sempre um passo atrás ou à frente do que dela esperam, do que é o normal. Mesmo altos, ela e o viaduto são sufocados pelos arranha-céus, ônibus, multidão, carros, fumaça, podridão. O viaduto se move ou serão seus pés? O viaduto se estreita ou são seus braços que se abrem? É o viaduto que se eleva ou é ela, vento no rosto, sorriso nos olhos, não mais sufocada, que se aproxima do chão?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

ALGO A VER COM A MORTE

Não importa quanto amor se tenha.

Não interessa quanto o corpo é acarinhado.

Não interessa quantos elogios.

Nem quantas amizades.

Não faz diferença o quanto a família acolhe.

Ou o quanto se tente resguardar-se e proteger a si mesmo.

De nada valem os sorrisos.

São fugazes mesmo as alegrias mais intensas.

Ou os momentos mais felizes.

"Algumas pessoas tem algo dentro delas. Algo a ver com a morte"

Algo que nunca vai embora.

Apenas escondemos este desejo bem fundo, até o ponto de jamais nos deixar.

Ninguém quer a morte, mas às vezes viver dói demais para continuar em frente.






"Toca quando deve falar. E quando seria melhor tocar, fala"

(Filme "Era Uma Vez No Oeste" de Sergio Leone, música de Ennio Morricone, dois gênios. Com Charles Bronson, Harry Fonda, Claudia Cardinalle, Jason Robards e Gabrielle Ferreti)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

40


Trinta, quarenta, cinquenta... tanto pode ser um avanço quanto uma inércia.

Números são traiçoeiros. Mas é verdade que quem está mental ou emocionalmente numa faixa mais avançada, tem um quê especial.

Tem uma beleza que não é a do viço da juventude, das expressões pueris, do corpo no auge.

A beleza de quem envelhece é maior: está nas marcas da felicidade desfrutada e nas cicatrizes das tristezas vividas. Está naquele brilho no olhar de quem já viveu muito mas ainda tem a viver mais apesar de ter-se quebrado por demasiado; tem a arrogância de quem já sabe muitas coisas mas a vontade de querer aprender.

Tem o riso e a lágrima, a frieza e a emotividade, a dor e o prazer, todos misturados e latentes.
Números são traiçoeiros. A beleza também, pois passa.

Mas não esta beleza vinda dos entalhes da vida, das imperfeições e das plenitudes.

Esta permanece.

Ainda que muitos não vejam tal beleza ou não a queiram.

É algo que mais repele do que atrai. Mais horroriza que fascina. É uma beleza que exige olhos de alma para se ver e contemplar.

Olhos de dentro que são cegados pelos de fora.


É esta beleza obscura e intensa que fascina a esta espectadora voraz. É esta a beleza que ela quer e teme alcançar com igual desespero.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

PODERÍAMOS




Um minúsculo grão de areia. Juntos, formaríamos uma imensa praia. Mas não, somos apenas um amontoado de sedmentos e entulhos alquebrados e moídos. Uns passando pelos outros, sobre os outros: seus corpos, sentimentos, sonhos. Correndo e atropelando, tão próximos e tão distantes.

Uma ínfima gota d'água. Faríamos juntos um gigantesco oceano. Mas somos lágrimas separadas e amargas. Nosso sal não combina, não tempera a vida - torna-a salobra e intragável. Afogamos as ambições, sonhos e desejos dos outros. Apagamos o fogo que nos outros há.

Um corpo, um pedaço de terra. Poderíamos ser um povo, se quiséssemos. Mas não: humanidade é uma utopia e povo é uma mentira da qual alguns se valem para lucrar, ascender ao poder. Para criar guerras, regimes, ditaduras. Somos uma nação, mas continuamos egoístas, pois mais do que defender sua porção, queremos as dos outros.

Somos pessoas, juntos formaríamos famílias, grupos, vizinhanças, cidades. Mas estamos sós, ainda que rodeados de outros. Estamos abandonados, ainda que tenhamos indivíduos consanguíneos ou mesmo paixões. Estamos perdidos, mesmo tendo casa. E olhamos de um lado para o outro, sem achar com quem falar, dividir alegrias e misérias, ainda que tantos se denominem amigos. Iludímo-nos de que estamos em contato com o planeta, conectatos e cercados de tecnologia - mas não conseguimos o contato de um abraço ou beijo sinceros, mal conseguimos estender a mão para cumprimentar quem nos saúda. Colocamos nossos fones, olhamos nossas telas: não ouvimos ninguém, não olhamos ninguém nos olhos. Assim não nos vermos forçados a tomar conhecimento de pessoa alguma. Ignoramos a todos.

Somos  uma praia que poderia ser linda, um oceano que seria profundo, um país que poderia ser belo, uma família que teria sido. Somos possibilidades não concretizadas.

Mas optamos por ser um monte de entulhos, insalubres e solitários.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CRER

 Acredite muito em Deus. Mas tenha uma descrença absoluta nas criaturas Dele - as pessoas. Vez por outra, uma pessoa surpreende e se mostra incrivelmente HUMANA. Mas é raro isto hoje em dia.
Tenha fé em Deus. Mas permita-se desacreditar de si. Afinal, o que você é? Quem é você? Um balão de ensaio de alguém que poderia ter sido e não é, seja por incompetência, azar, destino ou o que for. Chega no máximo a ser um projeto inacabado de gente. Um ser humano semi-pronto.
Ah, caia e levante bastante, porque todos dizem que é preciso ser guerreiro neste mundo, ter coragem, ter brio, até chegar o dia em que vai cair e desistir de levantar, para poupar a fadiga de se erguer e dar com a cara de novo no chão. 
Permita-se ficar deitado, parado. Reerguer-se para quê? Tombar novamente? Sonhar para quê? Iludir-se?
Viva a vida como ela é, não como gostaria que fosse. Sem sonhos, desejos, vontades, delírios. Assim talvez, TALVEZ, não seja alegre, não fique realizado... mas ao menos não será infeliz. Só será.
Não há de ser pecado só ser e mais nada.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ILHADA



É, endeusem a vida, digam o quanto ela é única e maravilhosa, o quanto não a valorizamos.

Siga adiante e diga o quanto a vida é preciosa, bela, e que devemos agradecer à Deus o dom de a termos.

Mas a verdade, que ninguém quer falar, é que a vida é bela sim, mas tem um lado feio, sujo, infeliz, cruel e que, para algumas pessoas, ela é mais terrível do que para outras, sendo assim, injusta e parcial.

Todos temos cinquenta por cento de acertarmos em nossas escolhas ou errarmos. Mas para gente como eu, a proporção de erros é de oito para um.

Sempre esfolando as mãos e os joelhos no terreno árido da vida, sempre caindo de cara no solo duro da realidade.

Chega de tolices sobre sucesso e sobre o que mais. Ser o que sou é o que me resta: um quase-nada indo pra lugar-nenhum, alguém procurando seu espaço no mundo sabendo que não tem lugar. O trem da vida está lotado. Não há desembarque ou entrada. Só queda do vagão. E não tem nenhum banco pra mim. Às vezes vou pendurada, agarrada às escadas, às vezes escondida com a carga, em geral, estou fora, seguindo à beira dos trilhos. Até chegar à praia. Mergulho no mar, nado, nado e morro antes de atingir a areia da ilha que sou.

De vez em quando em minhas parcas terras, nasce uma alegria, uma vitória, uma conquista. Mas no fim, sou uma ilha de impotência cercada de insucessos por todos os lados.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

CURTA



Em uma luta desleal, joga-se areia nos olhos do adversário para que este não veja o rival e possa ser derrotado com facilidade.

Tenho areia suficiente nos olhos para fazer uma praia e lágrimas para formar um oceano.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CEGUEIRA



Quando começo a acreditar, me lembro de todas as vezes em que tive a esperança estraçalhada, os sonhos pisoteados, as alegrias interrompidas, a confiança desrespeitada, a lealdade despedaçada, o amor ignorado.

Lembro-me dos rostos que se transformaram em gárgolas, dos sorrisos que se tornaram escárnio, dos abraços que viraram punhaladas.

Então me lembro da lição mais verdadeira que aprendi quando tinha pouca idade e que tem se mostrado a mais constante até hoje:

Confiar é dar a chave de sua alma a quem tem todas as oportunidades de lhe ferir e não deu nenhum motivo de que não irá fazê-lo. 

Confiar é cegar-se e acreditar que o outro será seu guia.

E quantas vezes a bengala é tomada e se é empurrado ao chão!

sábado, 16 de outubro de 2010

QUANDO



Quando eu me for não quero mais do que a certeza de que eu fiz diferença.
Não quero choro falso nem remorso.
Quero sofrimento sincero daqueles que me amaram.
Quero a indiferença honesta daqueles que de mim não gostavam.
Quero ir em paz, sem arrependimentos, culpa, desespero.
Quero ir-me deixando a dor finalmente para trás, a do corpo e da alma.
Quero ir com o coração leve e a alma cheia de boas lembranças.
Quero um mar calmo, navegar em águas tranquilas, ver através do turbilhão; e enxergar com clareza tudo que submergi em turvas águas.
Quero pescar de volta os pedaços de minha alma que fui deixando ao longo da viagem,
para me apresentar inteira no porto de chegada, defeitos e qualidades todos à mostra.
Não quero coroa de flores ou lápide intrincada. "Aqui jáz" não será verdade,
pois não serei mais do mundo.
Eu não mais estarei, terei partido, não estarei naquele lugar, não faz sentido um marco num ponto que não me localize...
Que ponham um mármore que diga: amada, querida, saudosa.
Mas que saibam que me encontro nas lágrimas, sorrisos, suspiros, alegrias, tristezas, angústias e sucessos de cada dia.
Quero ser relevante hoje o suficiente para fazer falta.
Quando eu me for, quero que me deixem ir; mas
que desejem que eu possa ter ficado mais.
Quando eu me for, quero remar rumo ao desconhecido com coragem, deixar  medo, pavor e pânico no mundano.
Quero anjos e nuvens e todas as coisas que imaginei e nem sei se serão.
Não quero a guerra diária que travo contra os outros e contra mim, para não ser massacrada pelas críticas e pela solidão.
Tudo será pacífico e belo quando eu me for.
E eu irei. Ah, irei.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SORRISO E SOMBRA



Ele é um mistério, disso eu sei. Sorri com toda alegria do mundo, dentes à mostra, lábios abertos num sorriso largo e acolhedor. Mas o que está por trás deste sorriso de menino, que lhe faz parecer tão mais jovem do que é, a criança que um dia foi e que ainda tem em si?

Isto não sei. Acho que nem ele sabe. Mas dá pequenas pistas do que pode ser: uma inteligência aguda, uma ironia fina, uma melancolia leve, um amor imenso, uma dor reticente.

O sorriso é um sol, que alimenta as sementes da amizade, faz germinar atração, carinho, paixão. Ilumina os amigos, atrai as mulheres, cativa as pessoas.

É ilha que acolhe, protege e acalenta. Mas que pode assustar em uma tempestade e ventania que vem de dentro. 

Ele é um mar, profundo e revolto.  É que assusta os nadadores modernos, que mesmo com suas roupas de mergulho, escafandros e submarinos, não sabem nada além de nadar na superfície, boiar, molhar os pés, no máximo banhar-se brevemente – todos incapazes do mergulho, de nadar nas águas fundas, puras e turvas. Poucos se aventuram a mergulhar em suas águas. Preferem ficar na areia se banhando da luz de seu sorriso do que se arriscar mar adentro. Ele mergulha também, à procura de um oceano que se conecte com o seu, através de um golfo, baía ou canal. Mas só encontra pequenos lagos ou lagoas paradas, inertes, insossas e rasas ou pequenos rios, que tem fluidez, mas são pedregosos e igualmente rasos.

À sombra do coqueiral, sombreia também seus sentimentos, pois que expô-los traz um sofrimento que não merece. E não há ninguém que o mereça.

Crê que a intensidade que dá, irá receber de volta. E irá, da mulher-mar que um dia vai encontrar. Neste dia, haverá um maremoto então... depois calmaria. E se somará ao seu sorriso solar e sua sombra emocional um mar de amor, ondas, marolas, ressacas e profundidade abissal.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PALAVRAS



PALAVRAS: COM PODER TAMANHO TONS VARIADOS ABALAM TANTO NOS CALAM  PERSUASIVAS ELAS NOS ESMORECEM SUBVERSIVAS NOS ESCLARECEM  CAUSAS DE GUERRAS MENSAGEIRAS DA PAZ VIAJAM POR MUITAS TERRAS SENHORAS DO QUE SE FAZ  PALAVRA: A MENTE MUITO NOS TOCA OS SENTIDOS CONTRADIZ O SIGNIFICADO IGNORA AO ÍNTIMO MARCA COM A-RISCA DE GIZ.

CANÇÃO






Amizade não só nas palavras;
num olhar compreensivo,
num gesto carinhoso,
num sorriso sincero,
numa lágrima solidária.
Amizade não só quando próximos;
distantes, ela faz-se viva em nossos
sonhos,
mentes, corações
teia de emoções e pensamentos.
Ela não tem tempo, duração, a amizade é ou não.
Pode gastar anos até existir, pode ser veloz e intensa.
Reflete em si
nossa própria imagem
de carne e memória,
de ossos e esquecimento,
de amor e paz.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

TREZE À GOSTO



O azar paira solto no ar, dizem. Sem pai, sem festa, sem dinheiro. Mil problemas no trabalho, que a consomem e desgastam. Mil palavras agourentas, mil olhares temerosos.

Mas isto só atinge aos outros.

A alegria que a preenche é enorme. Pois ela tem treze à gosto em sua vida, nas sextas-feiras e nas que não são. 

Cada treze, mais um ano, mais uma dor, mais uma felicidade, mais um amigo, mais um inimigo, mais uma couraça, força e vontade. 

Cada treze, mais uma experiência bem-sucedida, mais um fracasso, mais uma elevação espiritual, mais um pecado carnal.

Cada treze, ela é o alvo de tanto carinho, tanto amor, tanta amizade que nem todas as escadas, gatos pretos, agouros e maledicências a abalam. 

Ela tem treze à gosto na vida, cada um, um marco de sua existência neste redemoinho que é o mundo, onde todos procuram derrubar o outro a fim de se manter em pé.

Ela é treze, cantando forte como um Galo altivo, jorrando suas palavras e idéias contra tudo e todos que a tentam calar.

sábado, 24 de julho de 2010

A TEMPESTADE





- assim inadulterável, incontrolável. Pavor e água nos olhos e nas veias. Fúria cega e pungente. Arrasar, destruir, varrer as criações do homem até restar só planta, pau, pedra, sal, terra. Inundar as cidades e os sentidos. A água levando as benesses da modernidade embora. Levando a civilidade até sobrar o primal – medo, raiva, dor, sobrevivência, força, esperança, vida, morte – na escuridão da metrópole a luz rasga o céu, corta o breu, estrondo e clarão. Cada relâmpago, lâmina a sangrar a cidade, orgulho do homem, sua criação e criatura, agora besta fora de controle. No lar dos abastados, indefesos, miseráveis, benditos e déspotas, a água purifica, transborda, expõe a sujeira tão cuidadosamente varrida para debaixo do tapete. O trovão, grito. O relâmpago, lâmina. A água, benção e destruíção. Chuva, lágrimas, enxurrada, gritos, relâmpagos, lâminas, tudo se funde: é a tempestade. Banho de vida? Jorro de morte? Resposta inadulterável e incontrolável assim -

segunda-feira, 28 de junho de 2010

NÚMEROS, PAPÉIS E TECIDOS



Empacotar roupas - separar o que vai ser doado, o que vai ser jogado fora. Abrir caixas e separar ferramentas, velhos radinhos de pilha, um macaco de carro, uma furadeira manual, instrumentos de um tempo passado, tecnologia de ponta então.

Em outra caixa, velhos filmes em VHS, fitas cassete, revistas de esportes.
Em outra ainda, antigas apólices, cartões nunca desbloqueados, recibos sem fim.

Números, papéis, tecidos. No fim é tudo que somos no mundo. Nada do sorriso, da gargalhada, do carinho, do amor, do trabalho, nada permanece. Apenas números, papéis e tecidos.

Engraçado como se vive a vida querendo tanto, sentindo tanto, almejando mais para no fim não sobrar nada. Tanto esforço, tanta batalha, tantos períodos felizes ou não. No fim ninguém verá nada disso. Pois não podem ser empacotados, estes momentos não cabem em caixas, são o intangível.

Tudo que era tão quente e amável tornou-se tão frio e prático, tão concreto e inexpressivo.

De tudo da pessoa que me gerou e me amou, nada tenho senão números, papéis e tecidos.

Nenhum consolo, nenhum bálsamo para a dor da perda, nenhum mar de lágrimas no qual me esconder.

As lembranças vem e vão, mas não as posso vestir como um manto de conforto e paz.

Tecidos. Papéis. Números.

E eu entre tudo isso. Perdida.


SAUDADE PRA SEMPRE, PAI!


Deus, Nosso pai celestial.
Oh Deus, e meu pai.
Que também está no céu.
Pode a luz
Trêmula desta vela
Iluminar a noite do mesmo modo
Que seu espírito ilumina minha alma.

Papai, você pode me ouvir?
Papai, você pode me ver?
Papai, você pode me achar na noite?

Papai, você está próximo de mim?
Papai, você pode me ouvir?
Papai, você pode me ajudar a não ser assustado.

Olhando para os céus
Parece que estou vendo um milhão de olhos
Qual deles são os seus?
Onde você está agora já que ontem
Acenou se despedindo
E fechando as portas?
A noite é tão sombria.
O vento é tão gelado.

O mundo que eu vi é tão grande
Agora que estou sozinha.

Papai, por favor, me perdoe.
Tente me entender.
Papai, você sabe que eu não tive escolha?

Você pode me ouvir orando,
Qualquer coisa que eu diga
Até mesmo se a noite estiver repleta
de vozes?

Eu me lembro de todas as coisas que você me ensinou
Cada livro que já li.
Podem todas as palavras em todos os livros
Me ajudar a encarar as mentiras à minha frente?
As árvores são tão altas
E eu me sinto tão pequena.
A lua está duas vezes mais solitária.
E as estrelas estão com metade do brilho.

Papai, como eu te amo.
Papai, como eu preciso de você.
Papai, como eu sinto falta de você
Me dando um beijo de boa noite.